Um feliz aniversário para seu Ivo

22 Dez

Outro dia vi uma foto de meu pai. Os cabelos dele estão mais brancos e o rosto denuncia que ele não tem mais 33 anos. Claro, eu também não tenho mais cinco. Tenho 25.

O engraçado é que o tempo é muito mais dissimulado quando a gente está perto. Passa sem deixar rastros tão fortes. Ou, como seguimos no mesmo ritmo, fazemos de conta que às vezes ele nem existe.

Sabe, quando eu tinha cinco anos, o tempo não existia. Pensando bem, de certa forma, quando se trata dos nossos pais o tempo aparentemente não existe por muitos e muitos anos. A gente não se dá conta que envelhece. E eles também.

Pra mim, por muito tempo meu pai permaneceu com 33 anos. Depois com 38. E acho que a parada mais recente dos anos de meu pai, para mim, são os 46.

Noutro dia alguém me perguntou que idade ele tem. Fiz as contas. Em 2011 – e veja como o tempo engana, mas passa sem piedade – ele faz 54. Aí eu me dei conta que quando completou 50 eu não estava perto pra comemorar com as 50 velinhas no bolo. Mas nos 40 sim. Foram postas 40 velinhas na torta enquanto eu e meu irmão estávamos encantados com a brincadeira de colocar tantas velas quanto o pai não pudesse apagar.

Bom, eu sei que ele compreende. Eu também aceito, afinal, a vida faz isso com a gente. Como minha mãe disse esses dias, os filhos são criados para a vida. Mas eu queria estar lá agora, apagando quatro mais. Acho que vou soprar 54 velinhas daqui, do Planalto Cental. Tem ventado tanto aqui e talvez a fumaça com os três desejos que farei em nome dele chegarão rapidinho em Flores da Cunha.

Isso tudo porque, se hoje estou aqui e sou quem eu sou, é por causa dele. E de minha mãe. Juntos me ensinaram os valores mais importantes da vida. E cada gesto que aprendi com os dois – e com meu pai, em especial, porque esse texto é para ele, pelo aniversário – guardo e reproduzo até hoje.

Hoje eu olho para a foto de meu pai com os fios que eu nem percebi branquearem e me vem à mente toda a paciência e esforço que ele personifica, para nos criar com o melhor possível. Das coisas simples mas tão importantes, como os passeios de bicicleta, tentar achar as estrelas no céu pelo mapa astronômico da Superinteressante, acordar de madrugada para dar o remédio, não me deixar dormir com o cabelo molhado, café da manhã com frutas, iogurte e mel, acordar de madrugada para ir buscar na festa, acordar de madrugada para me levar para as provas e até para me levar embora, quando, depois de todo o esforço feito por eles, eu virei gente grande – mas ainda sendo filha, e por isso sempre um pouco criança.

Tem outras lembranças ainda mais bobas, como a força que meu pai tinha para carregar aparelhos de TV tão pesados, que o faziam parecer a pessoa mais forte que existia, a forma como sabia todas as coisas e como sempre teve muita disposição para me ouvir falar e falar e falar sobre todas as coisas que eu tivesse fôlego para expressar.

Eu até me confundo, porque queria fazer um texto sobre meu pai, como um presente de aniversário. Porque, na ausência, as palavras sempre acalentam. Mas acabo escrevendo sempre mais sobre mim. E tudo bem,  afinal, metade de mim é meu pai. Metade de mim é minha mãe. Foi a partir disso que me construi.

Então assim, só para tentar voltar ao que o texto pretendia ser no começo. Se eu tivesse que falar dele em poucas palavras, seria mais ou menos isso: amor, trabalho, paciência, dedicação, ensinamento. Mesmo com os frios brancos, eu ainda acho meu pai um cara bonitão. Ah, ele também não canta músicas em voz alta. Mas tem um bom gosto musical.

Uma muito breve e apressada reflexão sobre o jornalismo

29 Nov

Desde os oito anos eu não acompanhava novelas na TV. Por diversas razões, Fina Estampa tem chamado minha atenção. Aliás, vivo um conflito entre me prender na trama sem qualquer compromisso e toda a bagagem que tenho em mim de críticas à teledramaturgia brasileira. Então me distraio e, simultaneamente, critico cada momento.

Uma coisa tem chamado muito a minha atenção. Porque eu sou jornalista. A forma como o Aguinaldo Silva tem colocado a profissão na trama. Não é neurose, eu juro. Porque sei que personagem é personagem, ficção é ficção e tudo mais. Mas seguinte: Marcela está no rol dos personagens maus. Bem maus. E é jornalista. Tereza Cristina também é uma personagem má. E, assim como outros vilões, não se apresenta como profissional de alguma coisa. Marcela e os demais personagens repetem, insistentemente, que ela é jornalista. Jornalistazinha. Que passou episódio a episódio aprontando maldades apoiada na profissão. Praticando chantagens sob o pretexto das exclusivas. Aí eu pensei: se ela fosse realmente jornalista, não teria nem tempo pra matutar tanta maldade. E não foi apenas isso. Outro dia, a personagem Sol perguntou para outro, estudante de medicina, se o curso era difícil, afinal já era hora de se preocupar com o vestibular. Ao que o outro responde: “ah, é melhor você fazer jornalismo”, acompanhado de algumas gargalhadas.

E sabe por que eu me incomodo? Porque esse tipo de coisa ajuda a formar opinião, já bem abalada, sobre a profissão. E o mais complicado é que a imprensa não aborda ela própria, ou os profissionais que a constroem, exceto por momentos muito pontuais, como crimes contra jornalistas.

Porque as pessoas acham que é fácil ser jornalista. Porque jornalista sabe nada, faz perguntas óbvias e tudo mais.

Pois eu tenho algumas coisas a dizer para quem pensa desse jeito. E para quem se comporta com grosseria diante de um repórter. Primeiro: se a discussão pode contribuir com o aperfeiçoamento do trabalho da imprensa, vamosem frente. Masesse comportamento estúpido e fundamentado em uma espécie de preconceito não me serve. E também é bom ter em mente um pouco da nossa realidade.

Muito jornalista lê muito e está muito bem informado sobre uma porção de coisas. Porém, exceto alguns privilegiados que trabalham em editorias especializadas por muito e muito tempo, uma parte bem significativa lida com um número tão variado de assuntos todos os dias quanto você puder imaginar que surjam. E, desculpe você que acha que todo jornalista é burro, mas não existe quem, no mundo, consiga se especializar em todos os assuntos.

Eu, particularmente, tento saber sobre muita coisa. Mas algumas vezes simplesmente não dá. Porque não tem cabeça que aguente, assimile e guarde tanta informação.

Certa vez um senhor que sabe muito sobre as leis e que não tem qualquer afeição por jornalista (mas aposto que lê jornal todos os dias, porque ainda é preciso se manter informado) me disse que esses profissionais são burros, que não sabem do que estão falando, por isso não gosta de conversar com eles.

Pois então façamos o seguinte: vamos discutir sobre a minha profissão. Vamos falar sobre as teorias da comunicação, sobre a prática profissional. O problema nunca acontece com vocês, senhores que tudo sabem, simplesmente porque suas profissões não exigem isso. A exceção de um ou outro momento em que se apóiamem especialistas. Apostoque um médico, um advogado, um enfermeiro, ou seja lá o que for, não vai consertar o encanamento de casa, simplesmente porque tem gente que, sobre isso, sabe. Simplesmente sabe. Da mesma forma que nós buscamos especialistas que nos expliquem todo o emaranhado de conteúdo que não aprendemos numa faculdade de COMUNICAÇÃO. Ninguém exige de você conhecimento aprofundado sobre o que não diz respeito à sua formação como se exige de um jornalista.

A velocidade das coisas faz com que, muitas vezes, tenhamos a pauta em mão meia hora antes da entrevista. O prazo de pesquisa se restringe a uma rápida olhada no Google para recordar o que já saiu sobre o tema. E não é culpa do profissional. É culpa da forma que as coisas tomaram. Além disso, raramente há apenas um tema a ser trabalhado em um dia. Na grande parte das vezes, são dois, três, quatro assuntos diferentes que devem ser acompanhados por um jornalista, já que a informação tem que estar no portal, no jornal de amanhã ou no ar. Hoje à noite ou agora.

Como jornalista, deve-se imaginar, conheço muitos, muitos outros jornalistas. E em pouquíssimos – pouquíssimos mesmo – eu não vi a vontade de aprender e compreender para repassar a informação mais clara possível. Nem sei se em alguém percebi desinteresse pelo aprendizado e pela busca de informação. A grande maioria está sempre muito bem informada, no ritmo que a profissão permite e exige. Muitas vezes de maneira vaga, é verdade, simplesmente porque o dia tem 24 horas, das quais grande parte é de trabalho para que outras pessoas também sejam informadas sobre diversos assuntos.

E mais: se a informação parece vaga e não está redigida nos termos técnicos corretos, não é simplesmente porque o jornalista não sabe. É porque o Brasil tem quase 200 milhões de habitantes, a maioria absoluta sequer chegou ao ensino superior. Esses também têm que entender. E se não são abordados todos os aspectos que você, especialista, julgaria importante, é simplesmente porque não há todo tempo do mundo para uma abordagem mais cuidadosa. Por mais que tantas vezes quiséssemos.

Que fique claro que isso aqui não é uma ode ao jornalismo como se todos fossem profissionais perfeitos e completos. É lógico que não é assim, como em qualquer profissão. Sempre tem o bom e tem o mau profissional. Mas a grande maioria, pode ter certeza, não é formada por gente que optou pelo jornalismo ao invés de medicina porque achava mais fácil.

E, bom, eu gostaria de trabalhar esse texto melhor, para deixá-lo mais bem redigido e tecnicamente mais correto, mas não há muito tempo. Doze horas de trabalho e de informação me esperam. Porque o mundo não para de girar, as coisas não param de acontecer, e a gente tem que estar sempre atento a tudo, apurando cada detalhe. Porque, apesar de tantas mudanças, o público ainda recorre à imprensa para se informar.

Primavera silenciosa

7 Out

((Este é um artigo do biólogo Jackson Müller. Que eu acho que todo mundo deve ler. Por isso estou disponibilizando aqui. Pouquinho a pouquinho, espero que isso sensibilize as pessoas tanto quanto o texto – além da vivência e o aprendizado que tive acompanhando parte desse trabalho – me sensibilizou))

Navegar no Rio do Sinos é uma aula de educação ambiental e perseverança na espécie humana. Apesar de que conceitualmente “rio” ou flúmen (palavra derivada do latim, em raros casos utilizada em textos poéticos) é uma corrente natural de água que flui com continuidade. Possui um caudal considerável e desemboca no mar, num lago ou noutro rio, e em tal caso denomina-se afluente.

Atualmente nosso rio imita pouco a natureza dos descobridores, transportando o que a nossa sociedade de consumo descarta, num ritmo frenético, silencioso e contínuo de luta pela sobrevivência.

Nosso Rio dos Sinos compõem a bacia com mesmo nome, ocupando uma área de cerca de 3.800 Km2 e representa apenas 1,5% do território estadual, concentrando 22% do PIB gaúcho.

Povoada por culturas diversificadas e pujantes é formada por 32 municípios com variadas vocações, totalizando uma população estimada em pouco mais de 2 milhões de habitantes, contidos nessa que deveria ser uma efetiva unidade regional de planejamento.

A primavera de 2006 recém havia chegado. O dia estava ensolarado, o tempo seco, com vários períodos sem chuva. A vazão das suas águas estava reduzida, concentrando os poluentes e diminuindo os níveis de oxigênio dissolvido. O rio seguia seu curso. Os sinais do descaso das autoridades e da sociedade se faziam presente há bastante tempo. Continua assim hoje, apesar dos insistentes apelos, movimentações e tragédias que se repetem.

O dia 07 de outubro daquele 2006 estava para mudar a história. Meses antes a triste história já se havia iniciado, como tantas que parecem necessárias para gerar algum tipo de aprendizado ou mudança de comportamento.

Licenciamentos ambientais precários, operação de atividades poluidoras descumprindo as normas e padrões vigentes, um verdadeiro faz de conta.

As notícias que chegavam no amanhecer de 07/10/06 não eram boas. O crescente aumento dos usos das águas do Sinos começava a dar sinais de que algo estava para acontecer. Nossa sociedade não aprendeu a prevenir, planejar, compatibilizar usos e demandas. Parece que evolui através de sustos e sobressaltos.

Naquele fatídico dia 07/10/2006 os cardumes de peixes subiam o Sinos no chamado da vida. Aqui a piracema sempre começou mais cedo, motivando o movimento de variedade de espécies provenientes do Guaíba. Uma corrida pela vida!

A fonte principal da poluição consumidora do oxigênio dissolvido despontou do arroio Portão, trazendo as mazelas de uma sociedade voraz e alucinada. Com uma impressionante demanda consumidora do gás da vida seqüestrou as concentrações capazes de  manter a ecologia do rio em movimento, com resultados impressionantes e devastadores.

A baixa vazão, os esgotos sem tratamento sendo lançados diretamente nos afluentes do Sinos, os usos conflitivos com lavouras de arroz construídas em lugares impróprios e inadequados, o descaso generalizado e a forte carga de origem industrial serviu como tiro de misericórdia.

Oficialmente foram removidas noventa e oito toneladas de peixes mortos das estações “Passo do Carioca” e “Pesqueiro do Parque  Zoológico”, apesar de se acreditar que mais de 130 mil quilos tenham sucumbido naquele período.

Mais de dezessete espécies diferentes de peixes morreram naquele período, que parecia não ter fim. Seguiram-se novas mortandades verão de 2007 adentro. A cada ameaça de chuva a iminência de novas tragédias. Foi um grande e temeroso pesadelo. A água da vida transportando a morte…

A agonia dos cardumes era o que mais impressionava. Aos milhares migravam no chamado da vida para um labirinto venenoso. Sucumbiam, boiavam e a fraca correnteza os levava para os remansos, acumulando-se e aguçando o já grave quadro de degradação ambiental.

Remover todas essas toneladas de peixes mortos tornou-se uma expiação. Nosso Estado não estava preparado para lidar com uma tragédia daquelas proporções.

O prejuízo da perda da biodiversidade foi socializado, não foram apenas os moradores da bacia do Sinos que perderam, mas toda a nação brasileira, que acompanhou o desenrolar dos fatos. Responsabilizações, pedidos de prisão, multas e alvoroço geral diante das duras medidas impostas. Intervenção judicial inovadora requerida pelo Ministério Público Estadual e determinada pelo Judiciário de Estância Velha demonstraram que a situação havia passados dos limites.

Naquele episódio que hoje completa cinco anos surgiram ações administrativas importante e dignas de nota: criou-se o Pró-Sinos, implementou-se uma Força-Tarefa para coibir as ações criminosas contra o meio ambiente, institucionalizou-se a Promotoria Regional de Defesa do Meio Ambiente e viu-se surgir a Delegacia Especializada de Proteção ao Meio Ambiente (DEMA/DEIC), contemplando homens e mulheres que dedicam suas vidas à preservação da natureza. Destaca-se, contudo o valoroso e insistente trabalho desenvolvido pelo Batalhão de Polícia Ambiental da Brigada Militar, que com poucos recursos faz das tripas o coração.

Não se mata um rio de uma vez só. Em 2006 matou-se a porção inferior; em dezembro de 2010  a porção média e amanhã uma outra parte vai morrendo. A destruição continuada de seus ambientes, como os banhados, matas ciliares, áreas de remanso, locais de reprodução aguçam o quadro de degradação patrocinado pelo desinteresse e descaso da sociedade, profundamente motivado pela caçada econômica.

Poucas gotas de esgoto não tratado passaram a ser coletadas e submetidas a depuração; ações de fiscalização ambiental em fontes de poluição são esporádicas, por vezes despreparadas para tamanha demanda. A crise continua, apenas não se fala mais nela. Primavera silenciosa!

Ambientalmente rico, mas pobre de ações sociais coerentes com a sua importância ecológica o Sinos recebe dos arroios a poluição nossa de cada dia. Vem de territórios não planejados, conurbados, sem saneamento básico.

A quem interessa um órgão ambiental forte, preparado e atuante?

Medidas enérgicas foram adotadas para coibir os desmandos ambientais. Prisões em flagrante, interdições e responsabilizações criminais alertam para a necessidade de um novo modelo de proteção ambiental e desenvolvimento econômico mais equilibrado, socialmente justo e ecologicamente viável.

Não pode prevalecer a degradação ambiental para justificar a geração do lucro. Necessário integralizar novos meios de crescimento sem destruição do meio ambiente, numa modalidade mais sustentável, preconizada na Carta Constitucional brasileira.

Cinco anos de muita conversa e poucas ações concretas por parte dos administradores públicos. A poluição no Sinos ainda campeia e empurra-se com a barriga medidas concretas e efetivas para garantir a tão desejada qualidade de vida. Fragmenta-se e fragiliza-se o parlamento das águas com interesses ainda desconhecidos.

Como cidadãos e cidadãs devemos observar as lições da natureza. No próximo ano mudam-se os dirigentes locais, sem que necessitemos mudar as diretrizes. A diretriz principal deve ser recuperar, melhorar, remediar e qualificar o nosso rio do Sinos, independente da cor partidária dos administradores.

O flúmem representa como nossa capacidade criativa e criadora, tudo que nos torna humanos, aquilo que nos diferencia dos demais animais e deveria estar sendo aplicada em benefício da sociedade.

De certa forma migramos todos num mesmo rio: o rio das nossas vidas.

Não deixe o Sinos morrer.

Das minhas (aparentes) boas razões para não gostar de futebol

29 Jul

Falar de futebol é como falar do tempo. Quebra o silêncio do elevador e permite que pessoas tão diferentes em seus mundos, e tão alheias à realidade umas das outras, encontrem um ponto em comum (ou nem tanto) para interagir.  Talvez o futebol sirva pra isso: interação. Forçada. E nada mais.

“E teu time!”… “Ah, mas tá difícil”… “Bom, pelo menos o meu…”. Arf.

Eu sei falar muito bem do tempo. Acompanho a previsão todos os dias. Porque isso diz respeito diretamente à minha vida. Quer dizer: e se eu estender as roupas fora de casa quando tiver sol e de repente começar a chover? Eu acho que não quero isso. Porque teria que lavar tudo de novo.

Mas eu não entendo nada de futebol. E isso simplesmente não faz a menor diferença na minha vida. Eu não sei falar de futebol. E mais: eu não gosto de futebol. Fico mais interessada pelo drama que se forma nos vestiários repercutidos pela imprensa – eu acho que os programas de esporte funcionam quase como os tablóides = cheios de fofocas, suposições, falatórios… – do que pela bola rolando no gramado.

Só que andei pensando: esse meu desgosto com o mundo da bola mereceria uma análise psicanalítica.

Eu acho que como nunca fui intensa demais na vida, não aceitei que fosse intensa também no futebol. 8 ou 80 nunca foi meu chão. Talvez eu também tenha dificuldades em lidar com a frustração: no fundo no fundo, talvez eu nunca tenha torcido de verdade pelo receio da derrota. E da corneta. Nunca fui boa em discussões futebolísticas: imagina ter que reagir a uma corneta. Eu sairia sempre por baixo.

Talvez eu não goste de futebol simplesmente porque competições me cansem e me aflijam. Sempre fui péssima em competições: gincanas, disputas na escola, conflitos até mesmo sobre questões tão abstrtatas quanto a existência de Deus foram capazes de potencializar minha ansiedade a níveis onde meu controle não poderia agir, e a uma irritação que nem se compara aos piores dias de TPM. E só acho que isso não faz bem pra saúde. Ponto.

Então, penso que não gosto de futebol porque não sou boa em competições. E porque, embora tenha aprendido a perder, nunca soube lidar bem com derrotas. Terrível contradição. Mas tudo bem. Até porque, se é para falar de futebol, bom mesmo é aquele sem compromisso. Porque esse que a gente vê todos os dias, é só negócio. E como eu não faturo com ele, então é o momento que me retiro. Prefiro mesmo ficar de fora.

Breve desabafo 25

25 Jul

(ou Do direito que me reservo de falar algumas coisas soltas só pra sentir um pouco melhor)

Eu ainda não sei como se faz pra chegar onde quero chegar. Não sei como começar nem que caminho seguir. Na verdade, o começo precisa de trabalho. Mas um trabalho diferente desse que a gente sabe que se faz todos os dias no mundo todo, tomando conta de mais da metade dos nosso dias (sendo que precisamos também dormir, senão enlouquecemos – ou seja, tempo = artigo raro).

Só sei que precisa de paciência. E de um botão de start. Não sei onde está o botão, e também ando esquecida do dispositivo da paciência. Por uma razão: não estudei quatro anos e meio para ser datilógrafa ou para fazer ditado. Só reproduzindo como uma máquina. Pela simples razão que, para isso, existem as máquinas. Estudei para ver, refletir e, aí sim, produzir. Estudei para ser jornalista.

Tudo bem que a queda do diploma pode desvalorizar um pouco o que fazemos. Mas vos digo uma coisa: coloca aí qualquer um pra escrever notícia e vamos ver o que sai.

Pode ter muita gente com muita capacidade para texto. Mas aqui ó: fazer notícia, ainda mais pra conquistar leitores, não é lá tarefa fácil. Já disse: tenta, cara pálida.

Voltando a onde eu quero chegar, passado o breve desabafo relacionado à paciência. Paciência também não ajuda muito a chegar onde eu quero chegar, porque paciência bem que dá um tom de passividade. E passividade tá o tom de inatividade. E inatividade não é bom. Então é o seguinte: vou aprender a planejar. Porque eu sei comunicar, mas planejar nem sempre é o forte dos comunicadores. (Viu? Eu sei que não sei algumas coisas. Portanto, só sou intrometida quando sei. Quando não sei, deixo quem sabe resolver as coisas… não é difícil, né?). Resumindo: minha fase é de traçar metas e alcançá-las até 2013. Porque não vou chegar à Copa sem meus planos concretizados.

Para variar, sem variar tanto assim

24 Jul

Eu sempre acho meio boba essa coisa de colocar no seu blog pessoal algo de terceiros. Só que eu resolvi me dar esse direito, porque essa crônica – entre tantas outras também – é maravilhosa. E eu queria dividir, como se ela fosse uma das pequenas partes de mim que eu coloco nos textos que são meus mesmo. Porque é impressionante como a gente vai se tornando outros eus com o tempo passando, e com a vida sendo vivida. Aí vai.

 

SOBRE O AMOR, ETC.

Rubem Braga

 

Dizem que o mundo está cada dia menor.

É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.

Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.

Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.

Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.

Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dar um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.

Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranqüilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.

Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisa e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc, etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.

Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.

Maio, 1948.

Extraído do livro 200 Crônicas Escolhidas. As melhores de Rubem Braga. 4a edição. P. 87.

Para registrar

30 Jun

Bom, ao que parece, a pressão e a forma quase escandalizada com que foram recebidas as mudanças na Lei das Licitações, que haviam sido aprovadas em uma medida provisória, surtiram efeito. O governo voltou atrás e mudou o texto para garantir a transparência dos gastos com a Copa. Os valores serão divulgados logo após os lances e o acesso dos órgãos de fiscalização aos dados será permanente.